VIDEO BÁSICO - BR - José Henrique Lamensdorf - translation - tradução

Busca/Search
Go to content

Main menu:

VIDEO BÁSICO - BR

PORTUGUÊS > UM BLOG? > ARTIGOS


ELEMENTOS DE TRADUÇÃO DE VÍDEO


- por José Henrique Lamensdorf   



UM VÍDEO PRECISA SER TRADUZIDO - E AGORA?

O primeiro passo é convertê-lo para algum formato com que um tradutor possa trabalhar. Hoje em dia qualquer formato de vídeo pode ser convertido em vídeo digital, contudo o custo de fazê-lo pode variar bastante, dependendo da distância a cobrir, por exemplo, de filme, vídeo analógico (fita) ou algum formato menos comum de vídeo digital. analógico (fita) ou algum formato menos comum de vídeo digital. Na verdade, alguns tradutores ainda conseguem trabalhar com fitas VHS, mas se estas tiverem de ser convertidas em vídeo digital, o melhor é fazê-lo logo no início, antes de traduzir.

Também há uma questão de logística. Dependendo da distância física entre cliente e tradutor, o envio de fitas de vídeo ou discos de DVD poderá espichar o cronograma. Carregar e descarregar grandes arquivos de vídeo digital pela Internet poderá demorar muito tempo para ser viável. Um segundo de vídeo com qualidade de DVD significa gerar mais de 10 milhões de pixels na tela (mais o áudio). Mesmo com a compressão feita por software, é um bocado de dados. Então, para fins de tradução é melhor usar um vídeo com o tamanho de tela reduzido, mas com o som intacto. Isto é fácil (porém nem sempre tão rápido) de se fazer com software, até mesmo gratuito. Afinal de contas, a maior parte da tradução será feita a partir da trilha sonora, o vídeo serve apenas como referência.


DECISÕES, POR FAVOR!

A primeira decisão a tomar com relação à tradução de um vídeo é o resultado desejado. Como já vimos o resultado da tradução, ou seja, o idioma de destino já terá sido previamente decidido. Pelo que vemos diariamente na TV, as duas opções possíveis parecem ser dublagem e legendagem. Há outras, porém veremos estas duas primeiro.

Quer dublado ou legendado? Esta é a decisão inicial mais básica, visto que representará uma diferença significativa nos custos mais adiante. Ao menos no Brasil, o processo inteiro de dublagem, incluindo a tradução, custa três vezes mais do que a legendagem do mesmo vídeo. Mas não pare de ler para decidir isso agora, há mais algumas considerações técnicas a fazer. Um ponto importante é que raramente é possível "converter" a tradução destinada a um para o outro método. Uma mudança de objetivos após a tradução muitas vezes ocasionará trabalho perdido, retornando o processo à estaca zero.


AS OPÇÕES

Vamos tratar de quatro opções aqui: as duas básicas, legendagem e dublagem, e mais voice-over e híbrido.

Não há nenhuma regra rígida que impeça misturá-las num filme, porém mudanças injustificadas no mesmo filme irão causar um certo desconforto aos espectadores. Então vamos examiná-las.


Legendagem

É a solução mais econômica. Dispensa descrição, seus maiores pontos fracos são:

  • As legendas ocupam parte da atenção do espectador. Se forem uma ou mais “cabeças falantes”, uma opção viável é mandar traduzir o script para texto e enviá-lo por fax ou e-mail. Não será mesmo necessário assistir ao filme. É possível incluir fotografias dessas pessoas no script impresso.


  • Se as pessoas falarem muito rápido e disserem muita coisa em termos de conteúdo, parte disso poderá se perder, uma vez que não haverá tempo para se ler tanto na tela.


  • Definitivamente não funciona para filmes de treinamento técnico. Não é possível alguém ler algo como “Puxe a alavanca da trava por baixo da tampa para ter acesso ao botão de ajuste por baixo dela.” e ao mesmo tempo ver como isso é feito.


  • Se houver tabelas ou gráficos na tela, será impossível ler as legendas e eles também ao mesmo tempo, mesmo se tudo estiver traduzido.


  • Se o público tiver limitações para a leitura, ou na velocidade de leitura (crianças, analfabetos, deficientes visuais, estrangeiros), terá acesso restrito ou nenhum ao conteúdo.


  • O som original permanecerá intacto. Se a tradução for ruim, espectadores bílíngues poderão reclamar.



Dublagem

Também dispensa descrição. Como já vimos, o processo inteiro é três vezes mais caro que a legendagem. Seus principais pontos fracos são:

  • Exige um tradutor especializado em dublagem, de modo que o script te dublagem torne possível que dubladores sincronizem sua fala com os movimentos da boca dos protagonistas. Se for apenas narração em off, este problema não existe.


  • Embora eu não faça diferenciação, a maioria dos tradutores cobram (bem) mais caro para dublagem do que para legendagem.


  • Se houver muitos papéis, o custo da dublagem poderá disparar, visto que isso exigirá um elenco numeroso de dubladores.


  • Se houver música e efeitos, a trilha M-E, a menos que seja fornecida separadamente, poderá ter de ser re-criada, o que pode custar caro.


  • Musicais podem exigir legendagem parcial, ou talentos especiais para a dublagem: músicos e cantores.



Voice-over

É um processo semelhante à dublagem, porém mais econômico. Ele é visto num grande número de documentários e noticiários.

Em geral, ele envolve a dublagem por um máximo de três pessoas: um narrador, um “homem” e uma “mulher”. O narrador faz seu trabalho exatamente como se fosse uma dublagem. Os demais personagens começam a falar com o som original, seu volume é imediatamente reduzido a um mínimo, e uma tradução é lida, sem sincronismo, por um dos dois outros dubladores (o mesmo "homem" para a voz de todos os homens, e a mesma "mulher" para a voz de todas as mulheres). Eles terminam de falar um pouco antes de o personagem original fazê-lo, e o volume do som original é restaurado ao normal.

É mais barato que a dublagem em todos os aspectos, especialmente se o vídeo incluir declarações de muitas pessoas. Seus principais pontos fracos são:

  • O resultado final inevitavelmente parece um serviço “barato”, havendo um lembrete contínuo de que é algo que foi traduzido. Às vezes dependendo do conteúdo, ele dá a sensação que se pretendia dublar, mas o orçamento foi prematuramente esgotado.


  • Se houver qualquer interpretação dramática, ela será completamente perdida, visto que a tradução é lida com um mínimo de entonação, como num noticiário.


Quando isto é feito por uma única voz, seja para a narração, homens ou mulheres, chama-se “lectoring”.

Sua razão de existir é oferecer, a um custo muito mais acessível, um vídeo com o efeito de dublagem, de modo que os espectadores tenham mais tempo de ver as imagens, por não precisarem ler as legendas.


Híbrido

Neste processo, o narrador, e às vezes os personagens principais, são dublados. Todas as demais participações, tais como depoimentos de várias pessoas, são legendadas. É preciso bastante bom-senso para decidir o que será dublado e o que será legendado. Precisa haver uma certa lógica nisso, caso contrário mudanças frequentes – especialmente se injustificáveis – entre leitura e escuta irão comprometer o nível de atenção do espectador.


Vale a pena recapitular que uma mudança do processo no meio do caminho inevitavelmente fará retornar à estaca zero: a tradução. Então se um vídeo for modestamente legendado, tiver sucesso, e então tiver de ser legendado, tudo começará na tradução novamente. No melhor dos casos, a tradução inicial servirá como referência.


TRADUÇÃO

Alguns preconceitos errados...

Muita gente acha que é preciso transcrever um vídeo primeiro, para depois traduzi-lo. Isto não é verdade, se o vídeo tiver de ser traduzido de um certo idioma para outro certo idioma. Os bons tradutores de vídeo trabalham diretamente da trilha sonora do vídeo para o script traduzido.

Muitos tradutores oferecem um preço reduzido se o script original for fornecido. O motivo é que quando música e ruídos encobrem a fala, pode ser difícil entender e traduzir o que tiver sido dito. Todavia o script precisa ser correto, e corresponder à edição final. Muitas vezes não é, e não corresponde, então cuidado!

Algumas pessoas acham que tudo o que o tradutor precisa é o script, ou as legendas em algum idioma do qual possa traduzir, que não será preciso assistir ao vídeo. É aqui que nasce a maioria das bobagens que vemos na tela. Imagine a frase: It's down! Será que alguma coisa estava abaixada? Algum aparelho enguiçou? Ou seriam as penas de um travesseiro? Depois há palavras que não têm gênero no idioma de origem, mas que o têm no de destino, como cores (red = vermelho ou vermelha?), posições (sitting = sentado ou sentada?), adjetivos (pretty = bonito ou bonita?) etc. Uma infinidade de coisas que seriam banais para quem assistisse ao vídeo, mas impossíveis de descobrir sem vê-lo.

Na luta mundial pela redução de custos, algumas pessoas procuram contratar o fornecedor mais barato em cada uma das etapas. Vale observar que a tradução de vídeo é uma sequência cumulativa de eventos, a qualidade de cada um sendo totalmente dependente da de todos os anteriores. Se um DVD impecavelmente dublado ou legendado for duplicado em discos de má qualidade, e essas cópias forem inúteis, será apenas uma questão de descartá-las e duplicar novamente. No outro extremo da sequência, se a tradução for ruim, não haverá dublagem ou legendagem de alta qualidade que possam compensá-la. Se o processo seguir até a duplicação em massa, e as cópias tiverem de ser descartadas, o processo inteiro terá de voltar ao ponto onde houve a falha de qualidade, neste caso, a tradução, e todos os passos subsequentes terão de ser feitos novamente.


OS PASSOS APÓS A TRADUÇÃO

Vou tratar aqui do possível envolvimento do tradutor depois de ele ter feito sua parte.


Dublagem (e voice-over também)

O tradutor raramente é envolvido no processo de dublagem, depois que a tradução tenha sido entregue. A maioria dos problemas será resolvida pelo diretor de dublagem.

Todavia há alguns trabalhos onde se exige qualidade máxima em que – quando for geograficamente possível – o tradutor será convidado a assistir ao processo de dublagem no estúdio, para tomar algumas decisões na hora. Qualquer tradutor que tiver essa oportunidade deve aproveitá-la. É uma experiência valiosa, visto que ele verá as verdadeiras consequências de todas as suas decisões no processo de tradução, e assim conseguirá obter uma melhora radical na sua habilidade.

Em outros casos, o tradutor poderá receber o vídeo com a dublagem bruta (antes da mixagem) para verificar se algo precisa ser refeito. A esta altura é fácil reconvocar um dublador para refazer uma frase, ou mesmo parte dela. Somente depois que a dublagem bruta for liberada é que o próximo passo que agrega valor, a mixagem, irá ocorrer.


Legendagem

Graças à (r)evolução do vídeo digital, um tradutor tem condições de gerar um DVD completo, legendado, usando um computador comum, bastando ele ter alguns recursos simples e baratos.

Na legendagem, o passo seguinte à tradução é a “marcação”. Ela envolve desmembrar as legendas em blocos de texto com características específicas, como “X linhas de até Y caracteres cada” e certos padrões de pontuação, e atribuir a cada bloco desses dois tempos, o de entrada e o de saída. Essas características costumam variar de um país para outro, e o limite de caracteres por linha varia em função de especificações como a fonte e o tamanho que serão usados nas legendas. O resultado é entregue num arquivo de computador de formato específico, e há mais de 50 deles, muitos permitindo conversão entre um e outro, dependendo da sua compatibilidade com o software ou o equipamento que serão usados depois. Convém observar que alguns desses formatos de arquivos de legendas incluem informações mais detalhadas, por exemplo, o *.SSA, usado com programas de legendagem mais simples, ao passo que outros têm muito poucas informações, por exemplo, o *.TXT, usados por programas mais complexos de legendagem (muitas vezes de autoração de DVD), que irão tratar de todos esses detalhes.

Depois que um arquivo compatível de legendas tiver sido gerado, será a hora de renderizar, o que pode ser feito essencialmente de três maneiras. A mais simples é queimar as legendas diretamente no vídeo. Já vimos como é o resultado durante muitos anos no VHS. Depois de feito isso, o único modo de assistir ao vídeo sem as legendas será cobrindo a parte inferior da tela, onde elas aparecem. Outro método, usado por emissoras de TV a cabo, é gerar as legendas em tempo real e sobrepô-las à imagem. E a terceira é exclusiva do DVD, que consiste na autoração de um disco com arquivos chamados “sub-picture” com as legendas, que são sobrepostas ao vídeo durante a exibição. Um DVD pode conter até 32 arquivos diferentes desses, além da opção “nenhum”, a seleção sendo feita através de menus elaborados para isso, ou apertando sucessivamente a tecla “subtitle” do aparelho.


CLOSED CAPTIONS

Este artigo não estaria completo se eu deixasse de mencionar os closed captions. Eles se parecem com legendas, mas seu propósito é diferente: proporcionar a transcrição completa do áudio para espectadores com problemas de audição. Eles não exigem tradução, visto que estão no mesmo idioma em que a trilha sonora do filme. Todavia, não há qualquer objeção a closed captions em um vídeo dublado. Eles incluem não somente as falas, porém ruídos específicos, como [latidos], [partida de carro], [campainha] etc.

Tenha em mente que o problema de audição nem sempre será por uma deficiência do espectador; um ambiente barulhento, como o de uma estação ferroviária, poderá tornar os closed captions bastante úteis.


CONCLUSÃO

Este é um apanhado geral dos aspectos básicos da tradução de vídeo. Não é um trabalho para qualquer tradutor, é uma especialidade. Requer treinamento, e certamente melhora com a experiência. Há a possibilidade de o tradutor se limitar a apenas traduzir, como também de se aprofundar nas etapas posteriores. Cada cliente terá uma demanda diferente quanto às partes do trabalho que deseja: alguns irão pedir o serviço completo, ao passo que outros irão querer apenas a tradução para uma das opções descritas.

É sempre tão divertido quanto todos pensam? Não, é apenas tão divertido quanto qualquer outro trabalho de tradução. Tanto pode ser o próximo arrebatador de um monte de Oscars, como uma entrevista chata com gente chata que não sabe do que está falando e nem porquê. Tudo faz parte do trabalho!



© 2008 José Henrique Lamensdorf – Em função de acordo especial com o Proz, onde este artigo foi publicado originalmente em inglês, ele NÃO poderá ser republicado em outros lugares.


Clique aqui para ver a lista de artigos no site.

 
Back to content | Back to main menu