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A deslinearização do vídeo de treinamento


por José Henrique Lamensdorf   


Há alguns anos o vídeo de treinamento passou de VHS para DVD. Para os profissionais de treinamento mais antigos, foi apenas uma mudança de mídia e equipamento como a anterior, do filme de 16 mm para a fita VHS. Muitos não perceberam que nesta última mudança, ao passar de VHS para DVD, deixamos para trás algo chamado linearidade, e que com isso se abriu um novo mundo, cheio de possibilidades de interação.

Em primeiro lugar, o que se entende por linearidade?

Simplificando, é ter um ponto de partida, um ponto de chegada, e um único caminho obrigatório entre eles. O modo mais fácil de comprovar a linearidade do filme 16 mm e da fita VHS é percebendo que é preciso rebobinar após a exibição. Em outras palavras, para voltar ao ponto de partida é necessário percorrer o caminho inteiro ao inverso, pouco importa a que velocidade. O DVD não é linear; nele tudo é acessível instantaneamente, basta estruturá-lo para ter um acesso organizado.

A esta altura, o profissional de treinamento pode pensar em si mesmo como “pessoa física” e questionar: Antigamente eu pegava filmes em VHS na locadora e assistia na TV. Agora alugo DVDs, a imagem e o som são melhores, tenho mais opções de dublagem e legendagem, há mais material incluído, porém continuo assistindo exatamente da mesma maneira.

Então vamos pensar nesse profissional de treinamento em ação, conduzindo um programa qualquer. Dependendo da familiaridade que ele tiver com equipamentos eletrônicos, ficará mais ou menos tenso no momento de acionar uma parada do vídeo para discussão, exercícios ou outras atividades. É a nossa tão conhecida tela de “pare e discuta”.

Se ele errar a tecla num sistema linear, será apenas uma questão de retroceder ou avançar um pouco, e parar no ponto certo. Se errar a tecla num DVD, a menos que conheça bem a sua estrutura, poderá perder muito tempo tentando voltar até onde estava. Isto é motivo para mais tensão, se ele não for muito adepto da tecnologia.

O retroprojetor também foi aposentado com a glória de longos anos de bons serviços prestados. Agora as “transparências” ficam num arquivo de PowerPoint ou congênere, num computador. Novas técnicas, novos problemas. Usar um outro computador, não aquele mesmo onde foi preparada a apresentação, é arriscado. Podem faltar fontes (de letras) instaladas, a versão do programa pode ser incompatível... São mais chances de algo dar errado, que geram tensão para o instrutor.

Mesmo que tudo tenha sido testado e retestado, ainda há aquele momento de suspense quando se faz a comutação do projetor, do DVD player para o notebook, ou do programa de reprodução de DVD para o de apresentações no mesmo computador. Menus na tela, opções, configurações etc. Uma distração indesejável e desnecessária.

Com todas essas considerações, fico espantado que muitas produtoras e distribuidoras de vídeos de treinamento tenham se limitado a transferir seus programas de VHS para DVD, mantendo a linearidade do vídeo em si. O único ganho é que não há mais o que rebobinar. E mais surpreendente ainda é que algumas famosas produtoras internacionais continuam lançando novos programas de treinamento em DVD com a mesma linearidade do VHS.

O objetivo aqui é apresentar as principais possibilidades que a não-linearidade do DVD oferece em treinamento.

Parada automática – Em lugar de “pare a fita”, o DVD permite que num certo ponto do vídeo ele pare automaticamente, exibindo uma tela fixa, que na realidade é um “menu”, onde pode haver várias opções para o operador prosseguir, quando quiser.

Sequência padrão – Num vídeo que tenha várias paradas, para que o instrutor não precise lembrar qual será o próximo segmento, pode-se fazer com que o próximo segmento “padrão” – também chamado default – seja predefinido em cada parada: bastará teclar [Enter] ou [OK] no aparelho para que o curso prossiga na sequência original. Isso não impede que haja outras opções nessa parada, caso o instrutor deseje tomar outro caminho.

Rotas alternativas – Às vezes um mesmo filme de treinamento é adaptado para públicos diferentes. Era comum termos três fitas VHS, todas com o mesmo início, três “meios” diferentes, e um final comum. Em alguns casos havia uma fita de início, três fitas diferentes do “meio”, e uma fita do final. Há alguns modos de lidar com isso no DVD, tendo esses cinco vídeos do nosso exemplo (início + 3 “meios” + final) num único disco, por exemplo, fazendo a escolha de cada sequência em um menu no início da apresentação. As três partes serão exibidas na sequencia, sem paradas nem emendas, ou uma parada após o início, com um menu que permite escolher o “meio”, ou ainda com a opção de parar antes do final ou não. Observe-se que é possível fazer muitas outras combinações, este foi apenas um exemplo simples.

Embutir “transparências” – Se o propósito de uma parada for apresentar alguns tópicos ou discutir certas questões com “transparências”, é possível. Cada uma dessas telas, para fins de autoração de DVD, será um “menu”, com uma alternativa padrão - basta teclar [Enter] - e várias outras. Por exemplo, é possível uma tela propor uma pergunta para discussão e, a critério do instrutor, depois ir para uma tela (ou um vídeo) de respostas sugeridas ou, se a reação dos treinandos tiver sido melhor que o esperado, passar diretamente para a pergunta seguinte.


Além destas possibilidades, há outras que o formato do DVD permite, sem relação com a linearidade.

Inclusão de material de apoio – Como o DVD é um disco que pode ser lido não só pelo seu player, mas também por drives de DVD-ROM em computadores, é possível incluir o material de apoio (guia do instrutor, apostilas, handouts, etc.) no mesmo disco, geralmente em arquivos PDF do Adobe Acrobat.

Dublado e legendado – O VHS permitia apenas uma trilha de áudio, e era impossível desligar as legendas, quando já houvesse. O DVD permite até 8 trilhas de áudio selecionáveis e até mais de 30 conjuntos de legendas. Claro que não vamos usar tudo isso em treinamento no Brasil. Todavia, com a globalização muitas empresas têm investido no ensino da língua inglesa para seus funcionários. Pode-se ter um filme no mesmo DVD dublado e legendado. Dependendo do público-alvo de cada sessão de treinamento, será possível escolher entre uma opção ou outra para a exibição.


Depois de ter visto tantas possibilidades, o leitor deve estar curioso para saber se é possível “deslinearizar” a parte audiovisual de um programa de treinamento já existente. A boa notícia é que isto é perfeitamente possível, indiferentemente a se o material já está em DVD linear, ou ainda em fitas VHS. O maior problema será a interface entre a parte instrutiva e a parte puramente técnica.

Um bom técnico em autoração de DVD saberá executar o que for preciso, porém nem sempre terá a visão do instrutor de qual será a maneira mais direta ou flexível para fazê-lo. O profissional de treinamento certamente sabe o que gostaria de ter, porém às vezes lhe falta uma visão do seu trabalho executado dentro de um paradigma diferente. Conseguindo fazer esta ponte entre o técnico e o instrutivo, o processo poderá ser direto; caso contrário poderá envolver uma série de tentativas.

Quanto ao custo, ele é mínimo quando agregado a um processo de tradução e legendagem ou dublagem de um vídeo novo. Para programas já existentes, ele possivelmente se pagará em bem poucas utilizações, considerando a redução no equipamento necessário.

Neste último aspecto, é interessante observar que todo o equipamento audiovisual hoje caberia numa pequena maleta: um DVD player, um projetor de vídeo, e um par de caixas acústicas amplificadas - do tipo usado em computadores - para pequenos ambientes. Ambientes maiores provavelmente terão seu próprio equipamento de som instalado.

Finalmente, os ganhos. O uso de DVD não-linear não contribui diretamente para a eficácia do treinamento. Contudo ele contribui muito para a eficiência do instrutor, o que acaba contribuindo indiretamente para a eficácia do programa de treinamento.


© José Henrique Lamensdorf - Reprodução autorizada, desde que dando crédito ao autor e indicando o endereço da publicação original.

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