Estudo de caso: Vale a pena consertar legendas mal feitas? - José Henrique Lamensdorf - translation - tradução

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Estudo de caso: Vale a pena consertar legendas mal feitas?

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LEGENDAGEM BARATA E REVISÃO POSTERIOR:
VALE A PENA?


Relato de uma experiência em legendagem de vídeo de longa metragem:
Consertando a obra de um fansubber


HISTÓRICO

Traduzo profissionalmente desde 1973; traduzo vídeo para dublagem desde 1987; e para legendagem desde 2004.

Quando comecei a traduzir para dublagem, o VHS estava no auge. Obviamente, todos os meus trabalhos terminavam na entrega do script para o estúdio: um diretor de dublagem, técnicos e uma equipe de dubladores assumiriam dali até o final da jornada.

Eu me orgulhava de facilitar a vida de diretores de dublagem e dubladores, evitando a necessidade de forçar o ajuste da dublagem por tentativa e erro. Isto se chama métrica, minha maior preocupação ao traduzir para dublagem.

Enquanto estamos no assunto, o trabalho de dublagem não mudou muito na passagem do áudio/vídeo de analógico para digital. A eficiência certamente aumentou, em termos de não ser mais preciso correr a fita até o ponto certo, e alguns ajustes de áudio não precisarem mais ser feitos em tempo real.

Todavia ainda é preciso contar com artistas talentosos e competentes, um bom estúdio, talvez agora usando equipamentos mais baratos (computadores), porém software possivelmente mais caro.

Experimentei traduzir para legendas uma ou duas vezes nesse ínterim, todavia com pouco sucesso. Na época eu achava (erroneamente!) que a legendagem exigia descartar uns 40% do conteúdo da trilha de áudio. De qualquer modo, sempre contei com algum especialista revisando essas minhas poucas tentativas ao fazer a marcação do tempo.

Embora o trabalho de legendagem não envolvesse uma equipe numerosa, nos tempos da fita de vídeo, ele exigia equipamento caro: uma ilha de edição de vídeo, um gerador de caracteres, e o que se chamava de Genlock, um dispositivo capaz de sobrepor legendas no vídeo enquanto este estivesse sendo exibido em tempo real, de modo que outro VCR pudesse gravar ambos com sincronismo.

Em 2004, recebi uma solicitação diferente: traduzir vídeos técnicos para legendagem em inglês, no Brasil. O cliente me disse que não conseguira encontrar outra pessoa que tivesse tanto a capacidade para tradução técnica como o conhecimento de trabalho com vídeo que eu tinha.

Então resolvi aprender sozinho a fazer isso. A primeira coisa que percebi foi que o meu conceito de descartar conteúdo estava errado. Assim como a tradução para dublagem é uma questão de métrica, a boa tradução para legendagem trata de concisão: compactar o essencial de cada fala no mínimo de texto possível, para que o espectador tenha o máximo de tempo para assistir às imagens.

A segunda surpresa que me esperava foi que, depois de o vídeo ter passado para digital, a legendagem não exigia mais equipamento do que um computador razoavelmente potente e algum software.

Em menos de quatro meses, eu estava não só traduzindo vídeo para legendagem, mas também marcando legendas, queimando vídeos legendados, e até autorando DVDs interativos complexos.

Até aqui, eu me abstive de mencionar que me especializei no que se chama de vídeo corporativo ou empresarial, ou seja, de treinamento, institucional, de lançamento de produtos etc. Em todos esses anos, devo ter traduzido uns mil vídeos empresariais ou mais, juntando todos os dublados e legendados. Também traduzi talvez uma ou duas dúzias de filmes de longa metragem, não mais do que isso, porém todos eles para dublagem. Nunca havia traduzido um filme de longa metragem para legendagem. Ninguém jamais me contratou para fazer isso, possivelmente porque é um mercado à parte, onde nunca atuei.

A toda hora, vejo o que se chama de produção acadêmica, seja na forma de teses ou os respectivos resumos para traduzir, ou os trabalhos de minha mulher para o seu curso de pós-graduação. Todos eles se voltam para obter respostas a questões importantes nas respectivas áreas. Em vista disso, resolvi sair em busca de algumas respostas a questões relevantes à tradução e legendagem de vídeos. A vantagem é que eu não ficaria limitado a nenhum formalismo acadêmico, porém teria a expectativa de o meu experimento trazer respostas úteis..


O PROJETO

Para responder às perguntas mais adiante, eu:
  1. Escolheria um filme de longa metragem recente, que refletisse as tendências e práticas atuais de produção cinematográfica, e
  2. obteria um conjunto de legendas desastradamente traduzidas pelo que se conhece como fansubber, um tradutor/legendador que o faz meramente por diversão.

Eu então consertaria essas legendas, em lugar de traduzir todas novamente, bem como a respectiva marcação, observando o processo em comparação a fazê-lo do zero.


O filme escolhido foi “Truque de Mestre” (2013). As legendas do fansubber em português que encontrei foram assinadas por “Coveiro”, facilmente encontráveis pelo Google.

Esclarecimento importante: Esta experiência não tem nenhuma  relação com a tradução e legendagem profissionais do filme originalmente distribuído no Brasil, que nem foram consideradas. O objetivo aqui foi apenas determinar se é economicamente viável "consertar" legendas amadoras, usando a trilha sonora original.

Tentei assistir ao filme com essas legendas amadoras, mas foi impossível. Embora eu seja fluente em ambos os idiomas, depois dos primeiros dez segundos de diálogo, as legendas em português ficaram tão fora de sincronismo, desviando o bastante da minha atenção do áudio a ponto de me impedir de entender o que acontecia.

Então decidi fazer três coisas:
    1. Consertar a marcação de tempo;
    2. Consertar as quebras das legendas;
    3. Consertar a própria tradução.

A comparação lado a lado entre as legendas do fansubber (à esquerda) e as legendas revisadas que obtive neste processo (à direita) pode ser vista nesta planilha.

Algumas observações sobre o conteúdo da planilha:
    1. Algumas das mais desastradas traduções do fansubber foram destacadas em vermelho para sua diversão;
    2. Todas as quebras de linha foram removidas em ambas, para descongestionar;
    3. Tudo o que coloquei em itálico para indicar palavras em francês e falas em OFF foi removido, não havia isso nas legendas do fansubber;
    4. Os vazios nas legendas do fansubber representam legendas faltando; os vazios na minha revisão representam alguns segmentos repetidos de algum outro trecho do vídeo.
    5. Todas as quebras de linha foram removidas em ambas, para descongestionar;
    6. Tudo o que coloquei em itálico para indicar palavras em francês e falas em OFF foi removido, não havia isso nas legendas do fansubber;
    7. Os vazios nas legendas do fansubber representam legendas faltando; os vazios na minha revisão representam alguns segmentos repetidos de algum outro trecho do vídeo.

Se obtiver o vídeo e quiser assisti-lo com uma ou outra das legendas para comparar, pode baixá-las em formato SRT (SubRip), respectivamente de:
  • Arquivo do fansubber
  • Minha revisão - Cabe observar que acho que eu teria feito um trabalho bem melhor, se tivesse traduzido do zero, diretamente do filme. Reconheço que deixei passar o que estava meramente "aceitável", como parte da experiência.


RESULTADOS

Os resultados esperados deste processo de revisão eram reunir provas para responder a algumas perguntas comuns sobre a tradução para legendagem, conforme se segue.


P1. É econômico o vídeo ser traduzido para legendagem por um amador, e posteriormente revisado/editado por um profissional?

R1. Definitvamente NÃO! O tempo que levei para corrigir estas legendas teria sido suficiente para eu traduzir o vídeo inteiro, do zero.

Vamos colocar alguns números aqui. Suponha que um profissional fosse cobrar $100 (uma unidade monetária qualquer, apenas como referência) para traduzir o filme inteiro, portanto $33 para revisar as legendas correspondentes. Um cliente poderia estar disposto a pagar $50 (ou menos!) a um amador, mais $33 a um profissional para revisar, assim poupando no mínimo 17%, supondo que a tradução de um profissional dispensasse revisão.

Depois que um profissional tivesse visto o trabalho deste fansubber, ele nunca aceitaria revisá-lo por $33. Mais provavelmente, iria exigir os $100 pelo tempo que isso iria lhe tomar, de modo que o custo final, caso se espere uma relação duradoura entre o cliente e o profissional, seria $150.


P2. É econômico um amador fazer a marcação, e depois tê-la revisada por um profissional?

R2. NÃO. O mesmo caso da pergunta anterior se aplica à marcação.

Se estiver tão ruim quanto esta amostra, terá de ser refeita. Embora eu tenha conseguido deslocar blocos inteiros de legendas (fora do lugar devido a legendas faltando e outras que não deveriam estar lá), cada legenda teve de ser verificada, e a maioria teve de ser reajustada. Teria levado aproximadamente o mesmo tempo para refazer toda a marcação das legendas.

O deslocamento de blocos inteiros de legendas (para consertar a granel legendas faltando ou sobrando) requer deslocar de um certo tempo todas as legendas a partir de uma delas até o final, contudo isso resolve o problema somente até se encontrar o próximo bloco a deslocar, e é preciso verificar todas as legendas para descobrir onde começa o próximo bloco.

Além do mais, isso pressupõe que o tempo relativo de todas as legendas dentro de um bloco esteja correto, o que infelizmente não aconteceu.


P3. Do ponto de vista da qualidade, vale a pena um profissional revisar legendas mal traduzidas?

R3. Geralmente não. A revisão precisa ser feita em tempo real, ou seja, o revisor terá de assistir ao filme inteiro em velocidade normal, não há outro modo. Isto significa que o cliente estará pagando uma pessoa mais cara para compensar as falhas de outra, mais barata. O barato sai caro.

Se a tradução estiver tão ruim quanto neste caso, primeiro ela exigirá mais tempo do revisor profissional. Segundo, ao ver tanto lixo, o revisor muitas vezes poderá aceitar traduções meramente “passáveis”, ao passo que as faria muito melhores se estivesse traduzindo do zero. A qualidade final fica comprometida.


P4. Funciona bem dividir um filme longo em partes e distribuí-las entre diversos tradutores, para obter uma entrega mais rápida?

R4. Talvez isso funcionasse para uma série de TV, contudo sempre dando um episódio inteiro a cada tradutor e, acima de tudo, tendo um conjunto de diretrizes uniformes para coisas repetitivas.

Considerando algumas das gafes/palavras não traduzidas encontradas, fica bem evidente que esta foi a estratégia adotada por este fansubber. Alguns blocos destas legendas provavelmente foram feitos com tradução automática. Para piorar a situação, a montagem das diversas partes foi um processo de copiar e colar bem caótico: alguns blocos de legendas foram repetidos fora do lugar sem nenhum motivo aparente.

Um sinal revelador de haver mais de um tradutor foi encontrar “Lionel Shrike”, o nome de um personagem, às vezes traduzido como  “Lionel Picanço”, mas nem sempre.

Qual seria a sua reação, se a cada vez que um filme mostrasse o letreiro “Hollywood” nas montanhas de Los Angeles (e isso é frequente), aparecesse uma legenda dizendo “Azevedo”? (É a tradução de “hollywood” em português, uma plantação de azevinhos, e também um sobrenome.)

Então é razoável concluir que de panela onde muita gente mexe sai comida ruim.


P5. Ajuda fornecer ao tradutor o roteiro original?

R5. Sim e não.

Sim, porque ele ajuda o tradutor com a grafia correta de nomes próprios. Sim, porque ajuda a entender falas obscurecidas por efeitos sonoros.

Não porque o roteiro pode ser passado por tradução automática (e às vezes humana) e perdido concisão, bem como talvez inclua a tradução de falas que foram suprimidas na edição final, ou abafadas na mixagem final do som, de modo que não serão ouvidas da trilha sonora.


P6. Considerando o resultado desta experiência, qual é a melhor maneira de cortar custos em legendagem?

R6. Parece que há duas opções extremas.

Se, por qualquer motivo, qualquer porcaria de legendagem for satisfatória, procure o fornecedor mais barato; se puder, arranje quem faça de graça. De fato, algumas pessoas farão isso apenas pelo privilégio de serem as primeiras na região a terem visto o filme. Mas não vá reclamar depois, nem da qualidade e nem de o seu filme ter sido disponibilizado para download em sites de torrent.

A outra opção é acertar na primeira. Contrate um tradutor profissional de vídeo que agregue valor para fazê-lo, para tornar desnecessário qualquer retrabalho. Talvez custe mais no início, porém este será o total da sua despesa com tradução e marcação.


© José Henrique Lamensdorf
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