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Trabalhando com gravações de áudio

por José Henrique Lamensdorf  


Este artigo foi originalmente publicado em inglês, no Translation Journal, e depois no Proz, bem como em vários outros lugares e em idiomas diferentes, a maioria dos quais eu não entendo. Apesar disso, a evolução da informática tornou a versão original um tanto obsoleta, então ao menos no meu próprio site eu tenho um compromisso de atualizá-lo de vez em quando.


Há uma versão ampliada deste artigo
EM INGLÊS
em forma de vídeo de treinamento on-demand  no Proz.



Às vezes acontece, não é tão frequente assim, mas acontece. Um tradutor é solicitado a trabalhar a partir de uma gravação de áudio. O cliente imagina que um tradutor deva fazer isso com frequência; então fazê-lo em qualquer dos idiomas em que ele trabalha deve ser moleza.

Face à preocupação manifestada por iniciantes neste tipo de trabalho dentro de listas de discussão de tradutores na Internet, alguns anos atrás lancei algumas idéias. Como vários colegas do mundo inteiro me escreveram a respeito, e considerando que, no mundo da informática, muita coisa mudou nesse ínterim, resolvi atualizá-lo.


1. O trabalho

A solicitação pode ser para transcrever, traduzir, ou ambos, a partir de uma gravação de áudio.

Nunca é demais enfatizar que um dos deveres do tradutor é instruir seus clientes. Alguns deles pressupõem que os tradutores que trabalham para dublagem e legendagem o fazem a partir de texto escrito. Embora gafes frequentes na TV possam dar motivos para essa noção, ela está errada, ao menos quando se trata de dublagem.

Então, se o cliente pedir ambas (transcrição e tradução), não se precipite! Pergunte para que irão precisar da transcrição. Se for apenas para fazer a tradução, tente dissuadi-lo de pedir a transcrição; ela não será necessária. Você pode traduzir diretamente do áudio.

Uma transcrição serve para se ter por escrito o que foi dito na gravação, para criar material impresso sobre o seu conteúdo, ou para recriar um script destinado a uma refilmagem, mas certamente é desnecessária para dublagem ou legendagem.

Sendo assim, é importante saber o que o cliente pretende fazer com a transcrição ou a tradução. Se for um vídeo para dublagem ou legendagem, este tipo de trabalho exige técnicas especiais, portanto certifique-se de que você sabe fazer isso antes de aceitar o trabalho. Além disso, traduzir para
dublagem e para legendagem são trabalhos bem diferentes. Tome cuidado para começar no rumo certo!

Há, contudo, um caso onde transcrever para depois traduzir é uma opção sensata: quando a gravação tiver de ser traduzida por escrito (não para dublagem nem legendagem) para vários idiomas. É mais fácil encontrar tradutores que trabalham somente com texto, e este trabalho é mais barato, no mínimo porque leva menos tempo para fazer.


2. A mídia

Uma gravação pode estar em diversos formatos de mídia, e alguns deles apresentam dificuldades específicas. O áudio digital eliminou a maioria delas, porém o áudio analógico ainda está em circulação.

Se a gravação estiver em cilindros de cera, discos LP, filme de 16 mm, fita de vídeo, ou qualquer outro formato estritamente profissional ou "de outra época", você não tem a menor obrigação de ter o equipamento para tocá-lo. A menos que disponha dos recursos para converter o áudio de analógico para digital, peça ao cliente para providenciar isso.

Uma vez a gravação estando convertida para mídia digital, será possível trabalhar com ela usando o seu computador. Anteriormente havia muitos problemas quanto a converter entre os diversos tipos de arquivos. Todavia, meu programa preferido para este tipo de trabalho, o
Express Scribe, evoluiu o suficente para lidar com a maioria dos arquivos mais comuns de áudio e vídeo. A boa notícia é que a versão gratuita desse programa tem a maioria dos recursos que você poderá precisar.

Uma dica sobre o Express Scribe. Se não conseguir fazê-lo reproduzir corretamente seus arquivos de vídeo, é provável que esteja faltando o codec apropriado. O verbete em inglês está bem mais completo.



3. A gravação


Considerando o ato da gravação em si, nunca tome nada como líquido e certo. Se o cliente disser que é uma gravação
profissional, isso pode não significar nada além de alguém ter sido pago para fazê-la, e/ou que o equipamento parecia impressionar.

Você poderá receber uma gravação onde o volume foi ajustado alto ou baixo demais. Se o volume estiver muito baixo, é claro que você pode amplificar o som, porém ao aumentar o volume, o ruído de fundo (ou qualquer outro) ficará igualmente mais alto. Se o volume estiver alto demais, haverá distorção, e algumas palavras sairão "borradas".

Mesmo num filme profissionalmente produzido, há o risco de música ou efeitos sonoros encobrirem as palavras ou frases que você precisa ouvir.

Um outro problema é a pessoa que fala. Um sotaque estranho é o suficiente para precisar ouvir cada frase mais de uma vez, a ponto de exigir alguma criatividade para fazer sentido.

A velocidade também é um problema. Mesmo um locutor bom, que fala com clareza, se falar rápido demais poderá tornar o seu trabalho mais difícil do que deveria ser. Seaspalavraspareceremgrudadas, isto quer dizer que a boca de quem fala é mais rápida que seus ouvidos, e você precisará de um mini-retrocesso depois de cada parada.

Quase todos estes problemas podem ser resolvidos, embora separadamente. O som digital torna as coisas mais fáceis, sem exigir equipamentos sofisticados. Para resolvê-los, há alguns anos uso um programa chamado
Acoustica. Descobri um outro chamado WavePad, que é bem parecido, portanto é questão de preferência pessoal. Uma solução mais cara que passei a usar mais recentemente é o Sony SoundForge. Para aqueles que preferem software gratuito, o Audacity é uma boa escolha. Portanto há várias opções para escolher.

O programa de edição de áudio geralmente irá lhe mostrar a gravação em forma de gráfico, para você poder ajustar o volume conforme necessário. Você pode até ajustá-lo diferentemente em trechos específicos da gravação. Um caso destes seria quando a pessoa que segurou o microfone estava perto do apresentador, mas se virava para o outro lado ao colher perguntas ou comentários da platéia, mais distante.

Também é fácil remover ruídos permanentes. Pode ser o chiado da própria fita, um zumbido de equipamento mal aterrado, ou apenas o sopro de um ventilador ou condicionador de ar batendo diretamente no microfone. Basta escolher um trecho da gravação (quanto mais longo, melhor) do que deveria ser silêncio, e pedir ao programa de áudio para fazer uma "análise do ruído". Depois selecione a gravação inteira, e peça uma "redução de ruído" com base nessa análise. Isso deverá resolver 90% dos casos. Se você errar, sempre há a opção de "desfazer" e a chance de tentar uma redução de ruído mais leve.

Mesmo assim, tenha o cuidado de ouvir o que selecionou como "silêncio" antes de fazer a redução de ruído. Certa vez eu selecionei o (que achei que era) silêncio, mas nele o locutor limpava a garganta. Tudo o que ele disse desapareceu num clique! (Felizmente há o botão de "desfazer".)

Cuidado ao remover música e efeitos sonoros com este recurso; o risco de remover partes da fala junto é grande. É melhor conviver com este tipo de ruído.


4. O processo

Seu método de trabalho dependerá da sua memória
pessoal de curta duração, não o cachê do computador. Algumas pessoas (provavelmente as que fazem interpretação simultânea) conseguem guardar longas frases na mente por um curto prazo. Outras (como eu) só conseguem lembrar breves trechos.

Isto irá definir quanto tempo você pode escutar a gravação antes de parar e digitar. Conheço pessoas capazes de escutar 20-30 segundos de uma gravação, parar, e então sair martelando o teclado sem perder nada. Eu paro a cada frase ou, se for longa, a cada sinal de pontuação. Faça um teste e descubra o melhor modo para você trabalhar. É intuitivo, mas lembre-se de que você precisa encontrar o seu jeito, em lugar de tentar aprender algo novo, embora possa melhorar com a prática.

O uso do
Express Scribe. Embora você comprar ou construir o seu controle de pedal, descobri que as teclas programáveis de função [F#] são muito práticas para os controles de play, stop, rewind e outras. O Express Scribe também oferece velocidade variável de reprodução, para desacelerar os falantes rápidos. Para sua informação, foi ele o que me fez aposentar os dois grandes gravadores de rolo que usei por mais de uma década.

Enquanto estamos falando de software, se precisar de um programa muito bom e versátil para tocar diversos tipos de arquivos AV, experimente o
VLC Media Player.


5. O preço

Finalmente, a grande questão... Quanto você deve cobrar por um trabalho desses? Não é tão fácil encontrar padrões de mercado, embora existam alguns, inconclusivos.

Há duas medidas, totalmente incompatíveis, para este tipo de trabalho. Cada uma coloca o
risco em outro lado da transação.

Uma é cobrar pela duração da gravação (por minuto, por bloco de 10 minutos, ou por hora). O risco estará no
seu lado. Antes de escutar a gravação será impossível saber a velocidade com que as pessoas falam, portanto quanto texto por minuto ela irá render.

A outra é cobrar por palavra. O risco estará no lado do cliente, já que ele não saberá o tamanho do trabalho antes de estar terminado.

Seja qual for o modo que você e o cliente combinarem, deverá prevalecer, desde que ambos saibam em quê estão se metendo.

Um modo de descobrir o valor básico que você deveria cobrar é testando. Pegue uma gravação "média" ou "típica" de 10 minutos e faça! Use um cronômetro para saber quanto tempo você levou, e conte as palavras. Sabendo quanto você deve ganhar por hora de trabalho, é fácil calcular as tarifas que deverá cobrar por minuto de gravação e por palavra.

Mas isso não é tudo. Você terá de verificar se é uma transcrição ou uma tradução. Considere o tempo adicional de pesquisa ou o que for que lhe tomará para fazer a tradução para acrescentar, talvez como uma porcentagem fixa. Arredonde essa porcentagem para cimas, se achar que existe a probabilidade de você passar tempo adicional tentando entender um sotaque estranho.

Também leve em consideração qualquer bruxaria de áudio que você poderá ter de fazer, e acrescente um valor adequado para cobri-la como um risco, não como um custo permanente. E não se esqueça de incluir um pequeno retorno sobre o seu investimento em hardware e software, se for o caso.

Então compare seu preço com a realidade do mercado e ajuste-o. Existe, é claro, o risco de você perder dinheiro (ou ganhar um bom dinheiro e perder o cliente) no seu primeiro trabalho. Porém a prática leva à perfeição e, enquanto você desenvolve habilidade, logo descobrirá qual seria um preço adequado, tão justo quanto competitivo.




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